Reunião do CONTER em Brasília: Hora de Transformar Conversa em Ação Contra a Precarização da Radiologia
Nos dias 3 e 4 de fevereiro de 2026, a sede do CONTER em Brasília recebeu representantes de todos os Conselhos Regionais de Técnicos em Radiologia do Brasil. Na pauta, os problemas que estão destruindo a profissão: pejotização predatória, terceirização descontrolada, quarteirização abusiva, invasão de outras categorias profissionais e a ausência crônica de fiscalização e combate efetivo. A reunião aconteceu, mas agora a categoria precisa de respostas: o que vai mudar na prática?
O Que Foi Discutido (Ou Deveria Ter Sido)
A reunião reuniu diretorias regionais para tratar de temas urgentes que afetam milhares de técnicos e tecnólogos em radiologia por todo o país:
Pejotização selvagem e ilegal: Profissionais sendo forçados a abrir PJ para receber entre R$ 20 e R$ 25 por hora trabalhada, sem insalubridade, sem adicional noturno, sem férias, sem 13º. Um plantão de 12 horas rende míseros R$ 240 a R$ 300 - sendo que R$ 30 já vão embora no almoço. O pior: muitas dessas contratações são feitas através de sócio cotista, prática expressamente ilegal na CLT. Empresas burlam a legislação trabalhista criando "sociedades" fraudulentas onde o profissional entra como sócio apenas no papel, mas na prática é empregado sem direitos. Isso configura fraude trabalhista e precisa ser combatido com rigor. Se a pejotização for inevitável e legal, que seja justa: no mínimo R$ 45 por hora para compensar a ausência total de direitos trabalhistas, encargos, riscos e responsabilidades assumidas pelo profissional. Qualquer valor abaixo disso é exploração disfarçada de contrato empresarial.
Terceirização e quarteirização: Empresas interpondo empresas entre o profissional e o trabalho real, diluindo responsabilidades e direitos. Quando há problema, ninguém se responsabiliza. Quando há direito a receber, todo mundo desaparece. Essa prática acontece descaradamente dentro de prefeituras, autarquias, grandes hospitais privados e principalmente em Organizações Sociais de Saúde (OSS) que administram unidades públicas. Em 2020, a ALESP (Assembleia Legislativa de São Paulo) instaurou a CPI das OSS para investigar irregularidades, desvios e precarização nas contratações. A comissão ouviu denúncias, produziu relatórios, apontou problemas graves - mas nada mudou para a radiologia. As OSS continuam terceirizando, quarteirizando, burlando direitos e pagando salários incompatíveis com a responsabilidade dos profissionais. Grandes nomes do setor de saúde seguem lucrando enquanto técnicos e tecnólogos trabalham sem garantias, sem estabilidade e sem a proteção que a CLT deveria oferecer. A CPI virou letra morta e a precarização continua avançando sem fiscalização efetiva.
Invasão de biomédicos: Profissionais de outras áreas ocupando vagas historicamente da radiologia, muitas vezes sem a qualificação específica necessária, aproveitando-se de brechas regulatórias e da omissão dos conselhos.
Command centers e automação predatória: Centrais remotas substituindo profissionais locais, precarizando o atendimento e eliminando postos de trabalho.
Falta de transparência: Contratos milionários com advogados (R$ 10 milhões!), mas nenhuma prestação de contas clara. Decisões tomadas sem consulta à base. Anuidades cobradas sem retorno proporcional.
Conversa Não Paga Almoço
A categoria está cansada de reuniões que terminam em "vamos estudar o assunto", "vamos formar comissão", "vamos analisar juridicamente". Enquanto isso, profissionais estão nas trincheiras perdendo direitos, perdendo espaço, perdendo dignidade.
Queremos planos de ação concretos. Não basta discutir pejotização - é preciso notificar empregadores, mover ações judiciais, pressionar legisladores, criar campanhas públicas. Se o CONTER tem R$ 10 milhões para gastar com advogados, que esses advogados trabalhem PARA a categoria, não apenas PELO conselho.
Queremos cronograma. Quando começa a fiscalização intensiva? Quando saem as notificações para hospitais que burlam a CLT? Quando inicia a campanha contra a invasão de outras categorias? Quando teremos audiências públicas para discutir regulamentação?
Queremos transparência. Onde está a ata dessa reunião? Quem pode ler? O que foi decidido exatamente? Quais compromissos foram assumidos? Quais prazos foram estabelecidos? Ou vamos continuar no achismo e na especulação?
Os Conselhos Precisam Entrar na Briga
Não dá mais para os CRTRs e o CONTER ficarem na retaguarda enquanto sindicatos lutam sozinhos. A estrutura dos conselhos existe para fiscalizar, regulamentar e defender a profissão. Fiscalização não é apenas checar se o profissional tem registro - é garantir que ele trabalhe em condições dignas, com remuneração justa e direitos respeitados.
Hospitais públicos e privados precisam ser fiscalizados com o mesmo rigor. Não adianta pegar no pé de pequenas clínicas enquanto grandes redes hospitalares terceirizam tudo e burlam legislação trabalhista sem consequências.
OSS (Organizações Sociais de Saúde) não podem ser zona franca de precarização. Muitas usam o modelo de gestão para escapar de obrigações trabalhistas, pagando salários menores e oferecendo condições piores que o serviço público direto.
Empresas terceirizadas precisam ser responsabilizadas. Quando uma empresa quebra e deixa profissionais sem receber, quem contratou essa empresa deve responder solidariamente.
Sócios e cotistas de clínicas e hospitais precisam entender que profissional de radiologia não é custo a ser minimizado - é investimento em qualidade e segurança. A fiscalização precisa chegar até quem lucra com a precarização.
A Legalidade da Pejotização: Se Existe, Que Seja Justa
Ninguém está dizendo que pejotização não pode existir. Médicos trabalham como PJ em muitos lugares e ganham bem. A questão é: por que para eles funciona e para nós é exploração?
Se a pejotização for caminho legal e inevitável, que seja com valores dignos. Um tecnólogo em radiologia pejotizado deveria receber no mínimo R$ 80 a R$ 100 por hora para compensar a ausência de direitos trabalhistas, insalubridade, adicional noturno, férias e 13º. Qualquer valor abaixo disso é exploração disfarçada de "modernização das relações de trabalho".
R$ 20 a R$ 25 por hora é humilhação. É menos do que muitos entregadores de aplicativo ganham. É menos do que o custo real de vida. É insustentável.
O CONTER e os CRTRs precisam estabelecer valores mínimos de referência e notificar empregadores que pagam abaixo disso. Se há R$ 10 milhões em honorários advocatícios, que pelo menos uma fração disso seja usada para processar quem explora a categoria.
Invasão de Outras Categorias: Cadê a Fiscalização?
Biomédicos ocupando vagas de radiologia em diversos setores, muitas vezes sem formação específica na área de imagem. Command centers operados por profissionais sem qualificação adequada. Terceirizadas contratando quem está mais barato, não quem está mais capacitado.
Onde está a fiscalização do CONTER? Por que hospitais conseguem contratar profissionais de outras áreas para fazer trabalho que é atribuição legal de técnicos e tecnólogos em radiologia sem sofrer consequências?
A Resolução CONTER nº 2/2012 estabelece claramente as atribuições privativas do tecnólogo. A Lei 7.394/85 regulamenta a profissão. Há base legal para agir. Falta vontade política.
Transparência: Mostre a Ata da Reunião
Reuniões a portas fechadas, decisões sem divulgação, informações que não chegam à base. Isso precisa acabar.
Exigimos a publicação da ata completa dessa reunião de Brasília. O que foi discutido? Quais posições cada regional defendeu? Que encaminhamentos foram aprovados? Quais prazos foram estabelecidos? Que recursos serão destinados a cada frente de ação?
Se o CONTER e os CRTRs trabalham para a categoria, a categoria tem direito de saber o que está sendo feito. Transparência não é favor - é obrigação de quem administra recursos de contribuição obrigatória.
Dê Voz a Quem Está na Linha de Frente
Quem estava nessa reunião? Diretores, conselheiros, assessores. Quem não estava? O tecnólogo que trabalha 12 horas por noite recebendo R$ 240 de PJ. O técnico que foi substituído por biomédico e está desempregado. O profissional que viu sua clínica terceirizar tudo e seu salário cair pela metade.
Precisamos de espaço de fala. Audiências públicas regionais onde profissionais possam relatar suas realidades. Enquetes online sobre condições de trabalho. Canais diretos de denúncia com resposta garantida.
Os conselhos não podem viver em torre de marfim, discutindo a profissão sem ouvir quem vive a profissão no dia a dia. Nossos problemas são concretos, imediatos e urgentes. As soluções também precisam ser.
A Radiologia Precisa Se Levantar
Está chegando a hora de a categoria dizer: chega. Chega de precarização silenciosa. Chega de invasão de outras profissões. Chega de pejotização predatória. Chega de conselhos que não fiscalizam. Chega de falta de transparência.
Se for preciso, vamos às ruas. Se for preciso, paralisamos. Se for preciso, judicializamos cada caso de abuso. A radiologia brasileira tem mais de 200 mil profissionais. Quando essa massa se movimenta, muda qualquer cenário.
Mas para isso, precisamos de liderança. Precisamos que CONTER e CRTRs saiam da zona de conforto e entrem na luta de verdade. Não é para isso que pagamos anuidade? Não é para isso que existe fiscalização profissional?
Frente de Combate: O Que Esperamos
A categoria espera ações concretas e imediatas:
1. Fiscalização massiva: Mutirão nacional de fiscalização em hospitais públicos, privados, OSS e terceirizadas verificando condições de trabalho, regularidade de contratos e cumprimento da legislação.
2. Notificações em massa: Empresas que praticam pejotização predatória, terceirização abusiva ou contratam profissionais de outras áreas irregularmente devem ser notificadas formalmente.
3. Ações judiciais estratégicas: Usar os R$ 10 milhões em advogados para processar empregadores que violam direitos, não para defender apenas interesses do próprio CONTER.
4. Campanha pública nacional: Investir em mídia, redes sociais e comunicação para valorizar a profissão e denunciar abusos publicamente.
5. Lobby legislativo: Pressionar deputados e senadores para aprovar leis que protejam a categoria e regulamentem definitivamente a profissão de tecnólogo.
6. Tabela de valores mínimos: Publicar referência de valores justos para pejotização, de modo que profissionais saibam quando estão sendo explorados.
7. Central de denúncias: Sistema ágil e eficiente para profissionais denunciarem irregularidades com garantia de investigação.
8. Transparência total: Publicação de todas as atas de reuniões, balanços financeiros detalhados e prestação de contas trimestral.
A Reunião Acabou. E Agora?
Representantes de todos os regionais voltaram para seus estados. Os problemas continuam. Os profissionais continuam perdendo direitos. A precarização continua avançando.
Não queremos mais reuniões sem resultado. Queremos ver mudanças concretas nas próximas semanas. Queremos ver fiscalização acontecendo. Queremos ver notificações sendo emitidas. Queremos ver a categoria sendo defendida com a mesma energia que o CONTER se defende em processos judiciais.
Se os conselhos não se moverem, a categoria vai se mover sozinha. E quando isso acontecer, será tarde demais para qualquer tentativa de controle institucional. Profissionais organizados são mais fortes que estruturas burocráticas desconectadas da realidade.
Conclusão: A Bola Está Com os Conselhos
O CONTER e os CRTRs têm agora a oportunidade de provar que existem para servir a categoria, não para se servirem dela. Têm recursos (milhões em caixa), têm estrutura (conselhos em todos os estados), têm poder legal (capacidade de fiscalizar e punir).
O que falta é vontade de brigar de verdade. Vontade de incomodar hospitais grandes. Vontade de processar empresas poderosas. Vontade de enfrentar resistências políticas e econômicas.
A radiologia está esperando. Não por mais uma reunião. Não por mais um discurso. Mas por ação real que mude nossa realidade.
O recado está dado: ou os conselhos entram na luta ao lado da categoria, ou a categoria vai lutar apesar dos conselhos. A escolha é deles. A luta é nossa.
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